
Descubra a história de Boa Vista em Cabo Verde: primeiros habitantes, comércio de sal, Sal Rei, Povoação Velha, morna, piratas e património marítimo.
Quando pensamos em Boa Vista em Cabo Verde, as primeiras imagens que vêm à mente são frequentemente as de longas praias de areia branca, o deserto de Viana e as águas turquesa do oceano Atlântico.
No entanto, por trás destas paisagens esconde-se uma história muito mais rica.
Durante vários séculos, Boa Vista viveu ao ritmo do mar, do comércio, do sal, da pesca e das migrações. Dos primeiros povoamentos humanos ao desenvolvimento de Sal Rei, passando pelo comércio marítimo, ataques de piratas, o nascimento de tradições culturais e a independência de Cabo Verde, a ilha conserva ainda hoje numerosos vestígios do seu passado.
Descobrir a história de Boa Vista é, portanto, olhar para a ilha de outra forma: por trás de cada aldeia, de cada ruína e de cada barco esconde-se uma parte da história cabo-verdiana.
Boa Vista antes dos primeiros povoamentos
Como todas as ilhas de Cabo Verde, Boa Vista é de origem vulcânica. No entanto, juntamente com Sal e Maio, faz parte das ilhas mais antigas do arquipélago, o que explica o seu relevo muito mais erosionado, plano e árido do que o de ilhas como Santo Antão ou Fogo.
Segundo o Instituto do Turismo de Cabo Verde, Boa Vista foi alcançada pelos navegadores portugueses em 1460, no início da expansão europeia no Atlântico. A exploração do sal, a pecuária e as trocas comerciais favoreceram posteriormente a ocupação progressiva da ilha.
A história humana de Boa Vista começa, assim, intimamente ligada a dois elementos que continuariam a moldar o seu destino durante vários séculos: os seus recursos naturais e o oceano Atlântico.
Os primeiros habitantes de Boa Vista
O povoamento humano não aconteceu numa única etapa.
As pesquisas históricas e culturais divulgadas pelo portal turístico oficial de Boa Vista indicam que, a partir do final do século XV, pessoas escravizadas assim como homens livres foram transportados para a ilha. O encontro entre diferentes populações africanas e europeias, e mais tarde as trocas com marinheiros e comerciantes estrangeiros, participaram progressivamente na criação de uma sociedade e de uma cultura próprias de Boa Vista.
Esta história recorda que a cultura cabo-verdiana atual se construiu no cruzamento de várias influências, mas também no contexto violento da escravatura e da colonização portuguesa.
Ao longo das gerações surgiram uma língua, tradições, música e uma identidade crioula hoje profundamente associadas a Cabo Verde.
Povoação Velha, um dos berços históricos de Boa Vista
Para descobrir esta parte da história da ilha, Povoação Velha é um local imperdível.
Situada ao pé da Rocha Estância, a aldeia é apresentada pelo portal turístico oficial de Boa Vista como o primeiro local habitado da ilha. Foi também um centro importante de Boa Vista e terá mantido o estatuto de capital até 1810.
Ainda hoje, a sua arquitetura, as suas ruelas e a sua igreja permitem imaginar uma Boa Vista muito diferente da dos grandes hotéis e das infraestruturas turísticas atuais.
Povoação Velha permite sobretudo compreender que a história da ilha não começa em Sal Rei: muito antes do desenvolvimento da capital atual, já viviam comunidades no interior e no sul de Boa Vista.
Rabil e o desenvolvimento das trocas
Rabil ocupa também um lugar importante na história de Boa Vista.
O portal turístico oficial da ilha situa a sua fundação no final do século XVI e indica que a aldeia se tornou um centro ligado nomeadamente ao comércio do sal e à pesca.
Rabil conserva ainda hoje uma tradição artesanal particularmente conhecida: a olaria e o trabalho em terracota. Esta atividade faz parte dos elementos do património cultural destacados pelo Instituto do Turismo de Cabo Verde.
Assim, quando se visita hoje uma oficina de olaria em Rabil, não se descobre apenas uma recordação turística: entra-se em contacto com uma prática artesanal diretamente ligada à história cultural da ilha.
O sal: uma das grandes riquezas históricas de Boa Vista
Para compreender o desenvolvimento de Boa Vista, é preciso falar do sal.
Numa época em que a conservação dos alimentos dependia em grande parte da salga, este recurso tinha uma verdadeira importância comercial. No século XVIII, o comércio do sal desempenhava um papel essencial na economia da região.
Boa Vista possuía várias zonas naturais propícias à sua exploração.
O sal era depois trocado com outras ilhas e diferentes destinos marítimos. Esta atividade participou no desenvolvimento das comunidades de Boa Vista e contribuiu progressivamente para reforçar a importância de Sal Rei.
E este comércio é ainda visível no próprio nome da capital.
Por que razão Sal Rei se chama Sal Rei?
A capital de Boa Vista tem hoje o nome de Sal Rei.
Este nome está diretamente ligado à importância histórica das salinas que rodeavam a cidade e à exploração do sal. O portal oficial de Boa Vista recorda que Sal Rei estava outrora particularmente ligada à recolha de sal e à pecuária.
Quando o comércio marítimo se desenvolveu, Sal Rei tornou-se progressivamente um dos principais centros económicos da ilha.
Comerciantes e responsáveis políticos instalaram-se lá e mandaram construir casas de dois ou três andares. Vários vestígios desta época ainda podem ser observados na arquitetura da cidade.
Passear hoje pelo centro de Sal Rei em Boa Vista, nomeadamente ao redor das suas praças e antigas casas, permite assim reencontrar uma parte desse período em que o comércio marítimo ocupava um lugar central.
Uma ilha exposta a piratas e ataques marítimos
O desenvolvimento do comércio tinha também o seu reverso.
As mercadorias, o sal e os navios atraíram a atenção de piratas e corsários que frequentavam o Atlântico.
Frente a Sal Rei, no ilhéu situado na baía, as autoridades portuguesas estabeleceram uma fortificação destinada a proteger o porto e a cidade contra ataques. O portal oficial de Boa Vista menciona ainda esta fortaleza entre os elementos históricos visíveis ao redor de Sal Rei.
Esta presença defensiva recorda até que ponto o mar representava então tanto uma fonte de prosperidade como uma fonte de perigo.
Em Boa Vista, a história terrestre e a história marítima são quase impossíveis de separar.
Curral Velho, uma aldeia hoje abandonada
No sul da ilha encontram-se as ruínas de Curral Velho, uma antiga aldeia costeira.
O site turístico oficial de Boa Vista situa o povoamento a partir do século XVII e descreve uma comunidade que vivia principalmente da pesca, mas também do comércio do sal.
A vida ali era particularmente difícil. O isolamento, a falta de água potável durante os períodos secos e os ataques de piratas contribuíram progressivamente para a partida dos habitantes. A aldeia foi finalmente abandonada no século XIX, segundo a mesma fonte.
Hoje, as ruínas de Curral Velho constituem um dos testemunhos mais impressionantes do passado de Boa Vista.
Perante estes edifícios abandonados de frente para o oceano, torna-se mais fácil imaginar as dificuldades enfrentadas pelas antigas comunidades da ilha.
Boa Vista e o nascimento da morna
A história de Boa Vista não se resume ao comércio.
É também profundamente cultural.
A morna, hoje um dos grandes símbolos musicais de Cabo Verde, foi inscrita em 2019 na Lista Representativa do Património Cultural Imaterial da Humanidade da UNESCO.
Relativamente às suas origens exatas, as fontes históricas permanecem cautelosas. O dossiê apresentado à UNESCO aponta Boa Vista como o local do provável aparecimento de uma forma antiga ou "proto-morna", enquanto certas tradições evocam também a ilha da Brava na evolução posterior do género.
O portal cultural de Boa Vista situa o aparecimento desta primeira forma musical entre o final do século XVIII e meados do século XIX e associa nomeadamente Povoação Velha a algumas das primeiras mornas conhecidas.
É, portanto, mais exato dizer que Boa Vista desempenha um papel fundamental nas origens da morna, em vez de apresentar o seu local de nascimento como um facto histórico definitivamente estabelecido.
Esta música conta frequentemente a distância, o amor, o mar, a partida e a sodade: temas intimamente ligados à história do povo cabo-verdiano.
O mar no coração da história de Boa Vista
Pescadores, comerciantes, navegadores e famílias viveram durante gerações com o Atlântico como horizonte.
As trocas comerciais dependiam dos navios. A pesca contribuía para alimentar as populações. O sal partia de barco. Chegavam viajantes, outros habitantes deixavam a ilha.
Esta abertura marítima colocou Boa Vista em contacto com diferentes culturas e populações. O portal oficial da ilha sublinha justamente a influência das trocas comerciais internacionais e dos contactos com povos estrangeiros na formação do seu património sociocultural.
Por isso, descobrir Boa Vista a partir do mar permite também, de certa forma, aproximar-se da sua história.
A partir da baía de Sal Rei, a paisagem atual conserva ainda esta relação entre a cidade, o seu porto, o seu ilhéu e o Atlântico.
O Cabo Santa Maria: uma história mais recente que se tornou emblemática
Nem todas as histórias de Boa Vista remontam a vários séculos.
Na praia de Atalanta repousa ainda hoje um dos símbolos mais famosos da ilha: o naufrágio do Cabo Santa Maria.
O cargueiro espanhol encalhou nas costas de Boa Vista em setembro de 1968. Segundo as fontes turísticas oficiais da ilha e de Cabo Verde, transportava uma importante carga quando ficou imobilizado num banco de areia.
A sua carga foi progressivamente recuperada e o naufrágio permaneceu no local.
Com as décadas, o sal, as ondas e a corrosão transformaram o navio numa imensa estrutura enferrujada da qual hoje resta apenas uma parte.
Este naufrágio é muito mais recente do que outros episódios da história de Boa Vista, mas tornou-se tão associado à imagem da ilha que pertence agora à sua memória coletiva.
Da época colonial à independência de Cabo Verde
Durante vários séculos, Boa Vista, como o resto do arquipélago, fez parte do império colonial português.
No século XX, o movimento a favor da independência de Cabo Verde e da Guiné-Bissau ganhou progressivamente importância.
Após a queda da ditadura portuguesa em 1974 e um período de transição política, Cabo Verde proclamou a sua independência a 5 de julho de 1975.
Boa Vista entrou assim num novo período da sua história ao tornar-se uma das ilhas da República independente de Cabo Verde.
Para compreender a ilha atual, esta data continua fundamental: marca o fim de vários séculos de dominação colonial portuguesa e o início da construção do Cabo Verde contemporâneo.
Boa Vista hoje: entre património e turismo
Hoje, Boa Vista tornou-se uma das ilhas de Cabo Verde mais associadas ao turismo balnear e às atividades náuticas. No entanto, o seu património histórico permanece visível em muitos locais.
Em Sal Rei, algumas construções recordam a época do comércio do sal. Em Povoação Velha, o visitante encontra um dos povoamentos mais antigos da ilha. Em Rabil, o artesanato recorda tradições transmitidas ao longo das gerações. Em Curral Velho, as ruínas testemunham um modo de vida hoje desaparecido. E na praia de Atalanta, o Cabo Santa Maria conta uma história marítima muito mais recente.
O património de Boa Vista é também cultural: arquitetura, artesanato, música, língua crioula, tradições e a relação com o oceano fazem todos parte da identidade da ilha.
Locais a visitar para descobrir a história de Boa Vista
Se deseja ir além das praias durante a sua estadia, vários locais permitem compreender melhor o passado da ilha:
Sal Rei, pela sua arquitetura, o seu porto, as suas salinas e o seu património marítimo; Povoação Velha, para descobrir um dos locais habitados mais antigos de Boa Vista; Rabil, nomeadamente pelo seu artesanato e olaria; Curral Velho, com as ruínas da antiga aldeia; o ilhéu de Sal Rei, onde subsistem os vestígios de uma fortificação destinada a proteger a baía; Praia de Atalanta, para descobrir o naufrágio do Cabo Santa Maria.
Estes locais permitem compreender que Boa Vista não é simplesmente um destino de praia. O seu território é também o resultado de vários séculos de trocas, migrações, comércio, dificuldades e tradições.
Descobrir Boa Vista é também compreender a sua história
Uma praia pode parecer completamente selvagem hoje, embora no passado tenha sido utilizada por pescadores ou comerciantes.
Uma pequena cidade como Sal Rei pode parecer pacífica sem que se imagine a importância passada do seu comércio marítimo.
E um passeio de barco na baía ganha outra dimensão quando se sabe que estas mesmas águas viram passar durante séculos pescadores, comerciantes, navegadores e navios vindos de diferentes horizontes.
A história de Boa Vista é, portanto, indissociável do oceano Atlântico.
Na Marina Travel Tours, adoramos esta relação entre Boa Vista e o mar. Descobrir a ilha a partir do oceano permite não só admirar as suas paisagens sob outro ângulo, mas também aproximar-se de um elemento que acompanhou toda a sua história.
Ainda hoje, o mar continua no coração da vida de Boa Vista.
E é talvez olhando para a ilha a partir do oceano que melhor se compreende porquê.


